Josenir Lacerda
Pra certos tipos de dores
Não tem cura, nem remédio
Germina rancor e tédio
Onde brotavam amores
O que eram brilhos e cores
Vem o cinza e contagia
Prende o sonho e a utopia
Seca o balão da vontade
Ante a dura realidade
Queda enferma a fantasia.
A dor que não é da gente
Mas de alguém que a gente ama
Coração sofre, reclama
Enfraquecido e carente
Busca um norte, reticente
Mas resposta não consegue
Descrente e confuso segue
Magoado então vagueia
E na escuridão tateia
Ao cansaço quase entregue.
Quando a dor não é a sua
O controle não se tem
E de repente ela se vem
Sarcástica se insinua
Tece espessa falcatrua
Onde a paz fica envolvida
Sem forças, desfalecida
E o mundo fica cinzento
Some a luz que gera alento
E o elã que enfeita a vida.
É mais fácil calcular
Quando a dor é pessoal
Se de alguém especial
É tendencia duplicar
Tenta até nos sufocar
Porque no peito se instala
Feito mordaça nos cala
A nossa energia anula
A liberdade regula
Qual escravo na senzala.
Surge estranhas sensação
De inexplicável fraqueza
Desalento e incerteza
Frutos da decepção
Fuligem de frustação
Embotando a primavera
Anuncio de vã espera
No silencio esmagador
Igual rolo compressor
Transmuta em pó a quimera.
Espécie de pesadelo
Ou sonho que se intromete
Insinuante promete
Com um sádico desvelo
Mas não atende o apelo
De ter fim ao despertar
É perito em disparar
Flecha certeira e covarde
Seta de fogo que arde
E queima bem devagar.
A torpe decepção
Cruelmente se comporta
Escancara a frágil porta
Com deboche entra em ação
Ousada, chama atenção
Atrevida e orgulhosa
Na atitude imperosa
De verdugo e capataz
Tolhe o sonho, prende a paz
Qual rainha poderosa.
A decepção e a dor
Chegam no mesmo momento
São gêmeas no fingimento
Estranha dupla a compor
Devotas do desamor
Sempre fazem parceria
Uma age, outra auxilia
Pelo sofrimento unidas
Muito embora divididas
Estão sempre em sintonia.
Quais damas sofisticadas
Agem na futilidade
As cartilhas da maldade
Por elas são adotadas
No mesmo foco irmanadas
Juntas planejam eventos
Cúmplices nos sentimentos
Na lista de convidados
Os nomes selecionados
Seguem tristes argumentos.
Pensamento vira sala
Na qual adentra a tristeza
Uma andrajosa princesa
Trajando uma veste rala
Não se ouve sua fala
Porém a presença é forte
Qual portadora da sorte
Na penumbra ela se esgueira
Numa mudez sorrateira
De indesejada consorte.
Inútil tentar varrer
Da mente, tanta sujeira
Quando o sentir é poeira
Que teima por se manter
Fogo que volta a arder
No atiço da lembrança
Presença da esperança
Ressequida de desgosto
Luz mortiça do sol posto
Que no ocaso se lança.
Abertas porta e janela
Sem a devida licença
Indesejada presença
Feito mancha em aquarela
E o que já era sequela
Ainda sofre castigo
Sobejos de sonho antigo
Sobre a alma remendada
Que emudecida e cansada
Busca conforto e abrigo.
Entre suspiros e ais
A reunião prossegue
Não há quem pare, nem negue
Mesmo perante os sinais
São companheiros leais
Recebem boa acolhida
Explicam bem a ferida
Mas depois injetam fel
Tirando o sabor do mel
Que torna mais doce a vida.
Pois quando a dor é alheia
Para alguns vira banquete
Servido num palacete
E não tenebrosa ceia
Onde só fraca candeia
Lança luz bruxuleante
Que brilha em fugaz instante
Revelando algum perfil
Indiferente, sutil
Arremedo de semblante.
E se essa dor desse o troco
Fizesse o rumo contrario
E no sentido anti-horário
No destino desse um soco
Gerasse o mesmo sufoco
E num jogo de cintura
Praticasse a mesma agrura
Segundo a lei do retorno
Como se fosse um suborno
Cuja paga é a tortura.
Mas deve haver um emplastro
Um unguento poderoso
Ou placebo mentiroso
Que suavize esse rastro
Gravado no alabastro
Que finge envolver o peito
Sugestão de falso efeito
Cortina que encobre o plasma
Modelador do fantasma
Que assombra e tira proveito.
Crato-CE, Abril de 2022.

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