domingo, 29 de março de 2026

Certas Dores

 Josenir Lacerda 





Pra certos tipos de dores

Não tem cura, nem remédio

Germina rancor e tédio

Onde brotavam amores

O que eram brilhos e cores

Vem o cinza e contagia

Prende o sonho e a utopia

Seca o balão da vontade

Ante a dura realidade

Queda enferma a fantasia.


A dor que não é da gente

Mas de alguém que a gente ama

Coração sofre, reclama

Enfraquecido e carente

Busca um norte, reticente

Mas resposta não consegue

Descrente e confuso segue

Magoado então vagueia

E na escuridão tateia

Ao cansaço quase entregue.



Quando a dor não é a sua

O controle não se tem 

E de repente ela se vem 

Sarcástica se insinua

Tece espessa falcatrua

Onde a paz fica envolvida

Sem forças, desfalecida

E o mundo fica cinzento

Some a luz que gera alento

E o elã que enfeita a vida.

 

É mais fácil calcular 

Quando a dor é pessoal 

Se de alguém especial

É tendencia duplicar

Tenta até nos sufocar

Porque no peito se instala

Feito mordaça nos cala

A nossa energia anula

A liberdade regula

Qual escravo na senzala.



Surge estranhas sensação

De inexplicável fraqueza

Desalento e incerteza

Frutos da decepção

Fuligem de frustação

Embotando a primavera

Anuncio de vã espera

No silencio esmagador

Igual rolo compressor

Transmuta em pó a quimera.


Espécie de pesadelo 

Ou sonho que se intromete

Insinuante promete

Com um sádico desvelo

Mas não atende o apelo

De ter fim ao despertar

É perito em disparar

Flecha certeira e covarde

Seta de fogo que arde

E queima bem devagar.



A torpe decepção 

Cruelmente se comporta

Escancara a frágil porta 

Com deboche entra em ação

Ousada, chama atenção

Atrevida e orgulhosa

Na atitude imperosa

De verdugo e capataz

Tolhe o sonho, prende a paz

Qual rainha poderosa.


A decepção e a dor

Chegam no mesmo momento

São gêmeas no fingimento

Estranha dupla a compor

Devotas do desamor

Sempre fazem parceria

Uma age, outra auxilia

Pelo sofrimento unidas

Muito embora divididas

Estão sempre em sintonia.



Quais damas sofisticadas

Agem na futilidade

As cartilhas da maldade 

Por elas são adotadas

No mesmo foco irmanadas

Juntas planejam eventos

Cúmplices nos sentimentos

Na lista de convidados

Os nomes selecionados

Seguem tristes argumentos.


Pensamento vira sala

Na qual adentra a tristeza

Uma andrajosa princesa

Trajando uma veste rala

Não se ouve sua fala

Porém a presença é forte

Qual portadora da sorte

Na penumbra ela se esgueira

Numa mudez sorrateira

De indesejada consorte.



Inútil tentar varrer

Da mente, tanta sujeira

Quando o sentir é poeira

Que teima por se manter

Fogo que volta a arder

No atiço da lembrança

Presença da esperança

Ressequida de desgosto

Luz mortiça do sol posto

Que no ocaso se lança.


Abertas porta e janela

Sem a devida licença

Indesejada presença

Feito mancha em aquarela

E o que já era sequela

Ainda sofre castigo

Sobejos de sonho antigo

Sobre a alma remendada

Que emudecida e cansada

Busca conforto e abrigo.



Entre suspiros e ais

A reunião prossegue 

Não há quem pare, nem negue

Mesmo perante os sinais

São companheiros leais

Recebem boa acolhida

Explicam bem a ferida

Mas depois injetam fel

Tirando o sabor do mel

Que torna mais doce a vida.


Pois quando a dor é alheia

Para alguns vira banquete

Servido num palacete

E não tenebrosa ceia

Onde só fraca candeia

Lança luz bruxuleante

Que brilha em fugaz instante

Revelando algum perfil

Indiferente, sutil

Arremedo de semblante.



E se essa dor desse o troco

Fizesse o rumo contrario

E no sentido anti-horário

No destino desse um soco

Gerasse o mesmo sufoco

E num jogo de cintura

Praticasse a mesma agrura

Segundo a lei do retorno

Como se fosse um suborno

Cuja paga é a tortura.


Mas deve haver um emplastro

Um unguento poderoso

Ou placebo mentiroso

Que suavize esse rastro

Gravado no alabastro

Que finge envolver o peito

Sugestão de falso efeito

Cortina que encobre o plasma

Modelador do fantasma

Que assombra e tira proveito. 


Crato-CE, Abril de 2022.


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