domingo, 29 de março de 2026

Retratos da Humanidade

 


João Rodrigues (Reriutaba – Ceará) 






Certa noite, na calçada

Eu vi despontar a lua

Toda banhada de prata

Sem pudor e toda nua

Aquilo foi um convite

Para passear na rua.


Saí bem despreocupado

Tanto quanto um vagabundo

Daqueles que nunca pensam

Que há problemas no mundo

Queria deixar de pensar

Ao menos por um segundo.


Com a noite me beijando

A lua por companhia

Com as estrelas sorrindo

O vento numa alegria

Sussurrava em meu ouvido

Verso, rima e poesia.


Feito uma folha no vento

Saí andando à vontade

Sem rumo, sem direção

Pelas ruas da cidade

Pois eu queria esquecer

Dos males da humanidade.


Passando sob a marquise

Vi, assentado no chão,

Um trapo imundo de homem

Pra mim estendeu a mão:

“Senhor, me dê um real,

Ou um pedaço de pão”.



O meu encanto quebrou-se

Voltei à realidade

Ao ver um resto de homem

Servo da necessidade

Sentado aos pés da miséria

Implorando caridade.


Um olhar de sofrimento

Nem parecia de humano

O corpo magro coberto

Com umas tiras de pano

Como se não fosse feito

Pelas mãos do Soberano.


Ao atender seu pedido

Segui minha caminhada

E para esquecer do caso

Apressei minha passada

A fim de curtir a noite

Entrando na madrugada.


Vi o Cruzeiro do Sul

Acenando pra Plutão

Com os olhos passeei

Por outra constelação

De repente, uma criança

Veio em minha direção.


De mais ou menos dez anos

Vinha aquela criatura

Pequena, frágil, sofrida

Vestida de amargura

Parecendo a própria fome

Pintada numa moldura.


Era um fantasma de gente

Tentou sorrir ao me ver

De alma triste, abatida,

Talvez de tanto sofrer

Com voz fraca, disse: “Tio,

Me dê algo pra comer.”


Olhei praquela criança

Era pra tá na escola

Ter uma cama e comida

Ter família, jogar bola...

Mas andava pelas ruas

Com fome, pedindo esmola.


A pena invadiu meu peito

Rasgando meu coração

Meti a mão no meu bolso

Arrastei algum tostão

Ficou bastante feliz

Quando estendi minha mão.


Olhou e me agradeceu

Sem nenhuma falsidade

Saiu pulando e correndo

Pelas ruas da cidade

Parecia ter encontrado

A própria felicidade.


Senti a alma chorando

Mas foi só por um momento

Procurei olhar pra lua

Sentir o canto do vento...

Afinal, fui passear...

Esquecer o sofrimento.


Depressa virei a página

Daquela história de dor

Queria ver outra ilustrada

Com mais brilho, luz e cor

Que tivesse sido escrita

Pela mão do próprio amor.


Nem tinha cicatrizado

Minha mais nova ferida

Vi uma moça encostada

Num poste da avenida

Vendendo seu próprio corpo

Pelas esquinas da vida.


Abrindo o botão da blusa

Rápido como um beija-flor

Veio em minha direção

Com um olhar sedutor

Me pedindo alguns reais

Por uma dose de amor.


Falei “Não”. Ela insistiu

Me pediu só um minuto

Tentando me convencer

Como um vendedor astuto

Expondo seu próprio corpo

Como se fosse um produto.


Sentindo que eu não queria

Depressa, foi se virando

Pois já tinha outro cliente 

No pé do poste, esperando

Ali eu deixei a jovem

Parti de alma chorando.


Me lembrei de Madalena 

Que fora mulher da vida

Mas teve sua salvação

Por sentir-se arrependida

Pedi a Deus que essa jovem

Um dia fosse redimida.


Quando cheguei mais adiante

Vi outra cena indecente

Um homem sendo xingado

De maneira prepotente

Só porque a cor do outro

Era da sua diferente.


Da boca daquele homem

Jorravam litros de fel 

Senti que seu coração

Guardava um ódio cruel

Um veneno bem maior

Do que tem a cascavel.


Lamentei por esse homem

Ter tanto ódio e rancor

Como quem sente prazer

Agia com tanto furor 

Apenas porque seu próximo

Divergia de sua cor.


Ver o mendigo e a criança

Nas ruas, partiu meu peito,

A mulher vendendo amor

Fiquei muito insatisfeito

Além do homem pisado

Pelos pés do preconceito.


Saí de cabeça baixa

Caminhando pensativo

Mais na frente vi um pai

Furioso e agressivo

Botando o filho pra fora

Porque era homoafetivo.


A mãe chorava num canto

Com o seu filho, agarrada

O marido, feito um bicho,

Vez em quando uma pancada

Ver o seu filho indo embora

Doía mais que a bofetada.


Com aquela triste cena

Fiquei ali, sem ação

Imóvel, mudo, tremendo

Completamente sem chão

Entrei na primeira igreja

Pra fazer uma oração.


Meus olhos não tinham brilho

Com o peito feito fel

Pensei: “A casa de Deus

É mais doce do que mel

Talvez aqui eu me livre

Deste mundo tão cruel.”


Mas foi ali que sofri

A pior decepção

Ao ver um “servo de Deus”

De Livro Santo na mão

Explorando a fé humana 

E vendendo salvação.


Depois da cena que vi

Quase morro de desgosto

Naquele templo sagrado

Notei o pecado exposto

De vergonha, vi o Cristo

Escondendo o próprio rosto.


Era pra ser um passeio

Pelas ruas da cidade

Mas voltei pra casa triste

Ao ver tanta impiedade

E fui dormir abraçado

Aos males da humanidade.











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