domingo, 29 de março de 2026

AS GUARDIÃS DO FUTURO

 

Autora: Kênia Diógenes



Eu cumpria o meu dever

A casa quase arrumada

Quando coisa desvairada

Veio então me acontecer

Espero que possa crer

Em história tão medonha

Não quero ser enfadonha

No que venho a relatar

Sugiro me acompanhar

Se gostar, então disponha.


Quando da primeira vez

Que tal fato aconteceu:

“- Tô maluca!”, pensei eu.

“Agora endoidei, talvez?”

Um barulho assim se fez

Junto com a ventania

E não mais reconhecia

O local em que me achava

Deus do céu! Onde eu estava?

Era no que eu refletia.


Não era minha cozinha 

Tal qual dois minutos antes

Cercada de caminhantes

Era onde eu me detinha

Não sabiam donde eu vinha

Com roupa tão diferente

Bata, burca, num sol quente

Aquele povo trajava

A palavra me faltava...

Ocorreu um “de repente”.


Um carro que estava vindo

Apinhado de menina

Quando fez curva na esquina

Correu um homem brandindo

Atirando e repetindo:

“- Mulher não deve estudar!

Estão todas a pecar!”

Eu sem ter o que fazer

Empurrei aquele ser

Que lá no chão foi parar.


Pois que nessa hora mesminha

Outra ventania deu

E no mesmo instante eu

Voltei pra minha casinha

Mas não compreendi nadinha

Fiquei numa confusão

Que diabos se deu então?

Só depois eu saberia

Acompanhe minha agonia

E entenda a minha missão.


Sem crer no que me ocorria

E sem falar pra ninguém

Uns dois anos mais além

A história se repetia

Pois de novo a ventania

Me jogava num banheiro

Tive que correr ligeiro

Pra tomada desligar

E aquela mulher salvar

Do destino derradeiro.


Aquela eu reconheci...

Era Maria da Penha

Cujo marido desdenha

Sua história conheci

Eis que ligeiro surgi

Pra salvar daquele mal

Mulher tão fenomenal

Que seria então um dia

E para muitas traria 

Esperança no final.


É certo que morreria

Pois já era cadeirante

Do tiro que o tal pedante

Meses antes proferia

E vendo que não morria

Tentou eletrocutar

Me fazendo então chegar

Vinda assim lá do futuro

Para tirá-la do escuro

Que seria o seu lugar.


Logo que fiquei ciente

De deixá-la então com vida

Iniciei a partida

De volta pro meu presente

Perturbada, mas contente

Pelo que eu havia feito

Mas sem entender direito

Como aquilo funcionava

O porquê que eu viajava

E voltava desse jeito.


Certo é que eu não escolhia

O momento de partir

E demorei a sentir

Por qual motivo que eu ia

Tentava, não entendia

Mas percebi “um padrão”

Salvar com a minha mão

Uma guerreira da história

Logo que alcançava a glória

Voltava pro meu “rojão”.


Até que um dia me vi

No meio de uma corrida

Os cavalos de partida

Em país longe daqui

Em ano que não vivi

Pois há muito tempo ido

A mulher com seu vestido

No cavalo se jogou 

Naquele instante a matou

Provocando um alarido


Eu fiquei sem entender

O que ali acontecia

Aquela que eu salvaria

Teve a morte sem me ver

Eu pude reconhecer

De um bom filme que assisti   

A sufragista que vi

Em mártir se tornaria

Émile Davison seria

Essa mulher que eu perdi.


E pensei que sua morte

Teria que acontecer

Pois o mundo pôde ver

Como teve mulher forte

Desafiou sua sorte

Por direito de votar

Também de representar

Aquelas por quem lutavam

Até suas vidas davam 

Pro sufrágio vigorar.


Mas não pude imaginar

O que eu fui ali fazer

Se vi a mulher morrer

Sem tempo nem de pensar

Não podendo ali ficar

Corri junto aquela gente

Tentando ficar ciente 

Do que me aconteceria

Para onde que eu iria?

Que fazer daí pra frente?


Bem oito dias passei

Na Inglaterra do passado

Caminhando lado a lado

Das mulheres que herdarei

Toda a garra que eu terei

No meu tempo lá na frente

Que ali naquele presente

Eu fui tão fundamental

Contarei o essencial

Seja um pouco paciente.


Ocorreu naquele dia

Oito, depois que cheguei

Com elas me acompanhei

Me juntando à gritaria

Emeline Pankhurst ia

Liderando a caminhada

Quando a guarda bem armada

Foi em sua direção

Me joguei com ela ao chão

Ajudando a debandada.


No estopim da correria

A ventania surgiu

Meu corpo logo sumiu

No momento da agonia

Naquele instante sentia

Um cansaço e uma certeza

Ter vivido com destreza

Bela parte dessa história

Em que guardo na memória

Com muita garra e leveza.


Uma semana passou

Fui chamada outra vez

Meu destino assim se fez

E ao México me levou

Junto à Frida me jogou

Ela mesma, grande artista!

Que acidente fatalista 

Acabara de ocorrer

Só me restou atender,

Dar uma de socorrista.


Muito tempo ali fiquei

Estancando o sangramento

Tentando lhe dar alento

Até histórias contei

Seu futuro vislumbrei

Sem nada comprometer

Falei que ela iria ser

Uma mulher importante

Sendo que naquele instante

Restava sobreviver.


Quando o socorro chegou

Caminhei bem lentamente

Me afastando lá da gente

Que muito se acumulou

E meu corpo evaporou

Junto da poeira fina

Retornei pra minha sina

De mulher, mãe, professora

Também colaboradora

Da mudança feminina.  


Se ainda quiser saber

A primeira dessa história

Não me falhando a memória

Essa ficou por dizer

Se você puder me crer

Era Malala no carro

Com tal homem num esbarro

Tiro frontal, mas errou

E a menina se tornou

Um exemplo a quem me agarro.


Muitas vezes fui levada

A Cumprir esse dever

Sem nunca poder saber

Por que EU nessa jornada

Mas fiquei lisonjeada

E com todo amor segui

Quando certo dia vi

Outra mulher como eu

Foi então que me ocorreu

Que outras tinham por aí.


Fomos muitas viajantes

No tempo, na nossa história

Tivemos dias de glória

E dias desconcertantes

Fomos a datas distantes

Outras nem tão longe assim

Já vislumbrei zepelim

Homem bomba, diamantes

Já perdi mulheres antes

Passei muita coisa ruim.


Não foram só essas não

As mulheres dessa história

Já salvei Maria, Glória

Tantas que cedi a mão

Ajudei na depressão

Dando abraços muito forte

Outras lhes mostrando um Norte

Com palavras de amizade

Foi só com sororidade  

Que mantive tanta sorte.


Essa história foi inspirada no livro “Kindred: Laços de Sangue”, considerada a dama da ficção científica, Octávia Butler escreveu essa história potente e muito triste mas que me inspirou justamente dando uma visão mais esperançosa das viagens no tempo. Também me inspirei na série brasileira “Angelus”, cujos anjos da guarda estão à todo momento salvando pessoas de fins trágicos. Gostei de me ver como um anjo da guarda das mulheres que fundamentaram a minha própria história.
















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