Autora: Kênia Diógenes
Eu cumpria o meu dever
A casa quase arrumada
Quando coisa desvairada
Veio então me acontecer
Espero que possa crer
Em história tão medonha
Não quero ser enfadonha
No que venho a relatar
Sugiro me acompanhar
Se gostar, então disponha.
Quando da primeira vez
Que tal fato aconteceu:
“- Tô maluca!”, pensei eu.
“Agora endoidei, talvez?”
Um barulho assim se fez
Junto com a ventania
E não mais reconhecia
O local em que me achava
Deus do céu! Onde eu estava?
Era no que eu refletia.
Não era minha cozinha
Tal qual dois minutos antes
Cercada de caminhantes
Era onde eu me detinha
Não sabiam donde eu vinha
Com roupa tão diferente
Bata, burca, num sol quente
Aquele povo trajava
A palavra me faltava...
Ocorreu um “de repente”.
Um carro que estava vindo
Apinhado de menina
Quando fez curva na esquina
Correu um homem brandindo
Atirando e repetindo:
“- Mulher não deve estudar!
Estão todas a pecar!”
Eu sem ter o que fazer
Empurrei aquele ser
Que lá no chão foi parar.
Pois que nessa hora mesminha
Outra ventania deu
E no mesmo instante eu
Voltei pra minha casinha
Mas não compreendi nadinha
Fiquei numa confusão
Que diabos se deu então?
Só depois eu saberia
Acompanhe minha agonia
E entenda a minha missão.
Sem crer no que me ocorria
E sem falar pra ninguém
Uns dois anos mais além
A história se repetia
Pois de novo a ventania
Me jogava num banheiro
Tive que correr ligeiro
Pra tomada desligar
E aquela mulher salvar
Do destino derradeiro.
Aquela eu reconheci...
Era Maria da Penha
Cujo marido desdenha
Sua história conheci
Eis que ligeiro surgi
Pra salvar daquele mal
Mulher tão fenomenal
Que seria então um dia
E para muitas traria
Esperança no final.
É certo que morreria
Pois já era cadeirante
Do tiro que o tal pedante
Meses antes proferia
E vendo que não morria
Tentou eletrocutar
Me fazendo então chegar
Vinda assim lá do futuro
Para tirá-la do escuro
Que seria o seu lugar.
Logo que fiquei ciente
De deixá-la então com vida
Iniciei a partida
De volta pro meu presente
Perturbada, mas contente
Pelo que eu havia feito
Mas sem entender direito
Como aquilo funcionava
O porquê que eu viajava
E voltava desse jeito.
Certo é que eu não escolhia
O momento de partir
E demorei a sentir
Por qual motivo que eu ia
Tentava, não entendia
Mas percebi “um padrão”
Salvar com a minha mão
Uma guerreira da história
Logo que alcançava a glória
Voltava pro meu “rojão”.
Até que um dia me vi
No meio de uma corrida
Os cavalos de partida
Em país longe daqui
Em ano que não vivi
Pois há muito tempo ido
A mulher com seu vestido
No cavalo se jogou
Naquele instante a matou
Provocando um alarido
Eu fiquei sem entender
O que ali acontecia
Aquela que eu salvaria
Teve a morte sem me ver
Eu pude reconhecer
De um bom filme que assisti
A sufragista que vi
Em mártir se tornaria
Émile Davison seria
Essa mulher que eu perdi.
E pensei que sua morte
Teria que acontecer
Pois o mundo pôde ver
Como teve mulher forte
Desafiou sua sorte
Por direito de votar
Também de representar
Aquelas por quem lutavam
Até suas vidas davam
Pro sufrágio vigorar.
Mas não pude imaginar
O que eu fui ali fazer
Se vi a mulher morrer
Sem tempo nem de pensar
Não podendo ali ficar
Corri junto aquela gente
Tentando ficar ciente
Do que me aconteceria
Para onde que eu iria?
Que fazer daí pra frente?
Bem oito dias passei
Na Inglaterra do passado
Caminhando lado a lado
Das mulheres que herdarei
Toda a garra que eu terei
No meu tempo lá na frente
Que ali naquele presente
Eu fui tão fundamental
Contarei o essencial
Seja um pouco paciente.
Ocorreu naquele dia
Oito, depois que cheguei
Com elas me acompanhei
Me juntando à gritaria
Emeline Pankhurst ia
Liderando a caminhada
Quando a guarda bem armada
Foi em sua direção
Me joguei com ela ao chão
Ajudando a debandada.
No estopim da correria
A ventania surgiu
Meu corpo logo sumiu
No momento da agonia
Naquele instante sentia
Um cansaço e uma certeza
Ter vivido com destreza
Bela parte dessa história
Em que guardo na memória
Com muita garra e leveza.
Uma semana passou
Fui chamada outra vez
Meu destino assim se fez
E ao México me levou
Junto à Frida me jogou
Ela mesma, grande artista!
Que acidente fatalista
Acabara de ocorrer
Só me restou atender,
Dar uma de socorrista.
Muito tempo ali fiquei
Estancando o sangramento
Tentando lhe dar alento
Até histórias contei
Seu futuro vislumbrei
Sem nada comprometer
Falei que ela iria ser
Uma mulher importante
Sendo que naquele instante
Restava sobreviver.
Quando o socorro chegou
Caminhei bem lentamente
Me afastando lá da gente
Que muito se acumulou
E meu corpo evaporou
Junto da poeira fina
Retornei pra minha sina
De mulher, mãe, professora
Também colaboradora
Da mudança feminina.
Se ainda quiser saber
A primeira dessa história
Não me falhando a memória
Essa ficou por dizer
Se você puder me crer
Era Malala no carro
Com tal homem num esbarro
Tiro frontal, mas errou
E a menina se tornou
Um exemplo a quem me agarro.
Muitas vezes fui levada
A Cumprir esse dever
Sem nunca poder saber
Por que EU nessa jornada
Mas fiquei lisonjeada
E com todo amor segui
Quando certo dia vi
Outra mulher como eu
Foi então que me ocorreu
Que outras tinham por aí.
Fomos muitas viajantes
No tempo, na nossa história
Tivemos dias de glória
E dias desconcertantes
Fomos a datas distantes
Outras nem tão longe assim
Já vislumbrei zepelim
Homem bomba, diamantes
Já perdi mulheres antes
Passei muita coisa ruim.
Não foram só essas não
As mulheres dessa história
Já salvei Maria, Glória
Tantas que cedi a mão
Ajudei na depressão
Dando abraços muito forte
Outras lhes mostrando um Norte
Com palavras de amizade
Foi só com sororidade
Que mantive tanta sorte.
Essa história foi inspirada no livro “Kindred: Laços de Sangue”, considerada a dama da ficção científica, Octávia Butler escreveu essa história potente e muito triste mas que me inspirou justamente dando uma visão mais esperançosa das viagens no tempo. Também me inspirei na série brasileira “Angelus”, cujos anjos da guarda estão à todo momento salvando pessoas de fins trágicos. Gostei de me ver como um anjo da guarda das mulheres que fundamentaram a minha própria história.

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